Um abril sem cor

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Não tarda nada farei cinquenta anos. Não sei se é a angústia do tempo, a angústia deste fluir continuo em direção ao nada que me torna nostálgico, mas o que é certo é que não raras vezes sou sucumbido pela avalanche de uma melancolia que me torna cismado e taciturno, amargo e sorumbático, parado e triste.

Não sou, nunca fui, um revivalista e nem sequer gosto muito de evocar o passado, ma há dias em que uma saudade antiga me invade o espírito e se enrodilha na alma até me deixar extenuado.

Ontem foi um dia desses e hoje aqui estou, quase na infância, para tatear a angústia e sentir os cheiros e as cores de tamanha inquietação. Vim até aqui apenas para me sentir no som da água que insiste em cair por uma bica sem tempo, para desaguar, calma e límpida, entre os tufos da hortelã que sobrevivem num emaranhado silvestre.

As sombras já invadiram o terreno desta minha vida, mas o melro da infância continua ali, empoleirado na velha e carcomida acácia que está quase tão murcha como este abandono. Desenho os regos na terra com os olhos de outrora até ir de encontro ao teu sorriso. E aí estás tu, sempre a sorrir, eternamente a sorrir, em pé, ali ao pé do tanque da horta, como se o tempo tivesse recuado uns quarenta anos.

Há quarenta vivíamos um tempo novo, um tempo marcado de esperança que nos agasalhava o futuro. E no teu ritmo, lá ias granjeando os teus sonhos, sem nunca esquecer o canteiro das flores onde cultivavas os cravos.

Há quarenta anos vivíamos a primavera dos cravos. Um tempo de flores renovadas por rubras cores que irrompiam de entre um negro molesto que durante meio século nos anoiteceu no desespero. Há quarenta anos éramos felizes e tu recomeçavas a vida. O país recomeçava a viver. Tu tinhas esperança, Portugal tinha esperança, e eu também, talvez, não sei…

Vim até aqui, até à minha infância, para te reencontrar, para me reencontrar, e para poder falar desta minha desesperança de hoje. Vim até aqui para poder falar do nosso país sonhado que não chegou a acontecer. Vim até aqui para poder falar deste desfalecer contínuo em que mergulhou a nossa terra. De dia para dia são cada vez mais as ervas daninhas que nos asfixiam a alegria, as mesmas ervas daninhas que já nessa altura tentavam invadir o canteiro dos teus cravos de abril.

Eu sei que os tempos mudam, que nós mudamos, que a História flui; o que não sabia, ou fazia por esquecer, é que os verdugos são mesmos reais e podem irromper a qualquer momento, medonhos e irados, para nos imolar os sonhos que alimentamos sempre em pacífico esmero, neste lado de cá, neste outro lado de cá onde mora a poesia.

E é apenas isso que pretendo evocar hoje, aqui, nesta terra desolada, seca, triste e sem cor. E é simplesmente isso que vos quero recordar hoje, aqui, sem mais, neste dia de abril desolado e seco e triste e sem cor.

Vale de Mendiz, 25 de abril de 2014

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