Seriam os antigos médicos da “Escola de Hipócrates” os responsáveis pela saudável dieta mediterrânica? Novo estudo defende que sim

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ANa actualidade muito se tem falado nos benefícios para a saúde da dieta mediterrânica e o consenso sobre esta matéria é de tal ordem que a dita dieta foi proposta e é actualmente considerada como Património Mundial Imaterial da Humanidade, tendo sido elevada a essa categoria pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).

Esta candidatura resultou de um protocolo transnacional e reuniu sete Estados com culturas mediterrânicas, onde se incluem Portugal, Chipre, Croácia, Grécia, Espanha, Itália e Marrocos.

Fundamentou-se esta candidatura em factos históricos associados à cultura mediterrânica, nomeadamente à comida consumida ao longo dos tempos pelos habitantes destes territórios, e que segundo alguns investigadores resultou de um processo adaptativo de longo prazo decorrente de um aproveitamento dos recursos disponíveis num espaço definido por características comuns ao nível da geografia, do clima, da flora e da fauna típica da região.

Essa fundamentação histórica apelou também para o papel das trocas comerciais e culturais entre os povos que se acantonaram à volta do mediterrâneo, ajudando assim a difundir e a construir um vector comum em termos culturais, onde se incluem, além das festividades e tradições, os hábitos alimentares como o uso do azeite, o consumo abundante de cereais, legumes, frutas variadas e o vinho, particularmente o tinto.

Por certo que à fundamentação histórica desta candidatura, aprovada em dezembro de 2013, faltaram os dados científicos agora difundidos a partir de um artigo publicado no Journal of Ethnopharmacology, que defende o papel crucial dos antigos médicos gregos na simplicidade e na riqueza dos sabores da cozinha mediterrânica.

Ao que parece, desenvolveu-se na antiga Grécia uma escola de discípulos de Hipócrates que através da alimentação tentaram tratar os seus doentes, construindo-se assim uma gastronomia que haveria de prolongar no tempo os seus benefícios para a saúde.

O trabalho de investigação recentemente editado e liderado por John Wilkins, baseia-se num novo estudo de textos escritos pela citada “Escola de Hipócrates” e mostra que esses antigos filósofos e médicos acreditavam que o sabor era um marcador chave da nutrição e da saúde proporcionada pelos alimentos.

O estudo salienta que os antigos gregos primeiro, e os romanos depois, viam a comida como o elemento central para o equilíbrio e a saúde do corpo humano, facto que levou alguns médicos da época a escreverem autênticos livros de culinária, associando num alimento o seu sabor mais agradável e, ao mesmo tempo, os benefícios que esse alimento trazia para a saúde de quem o consumia. Foi o próprio Hipócrates que escreveu ” deixa que o alimento seja a tua medicina e que a medicina seja o teu alimento”.

Este trabalho fundador da antiga medicina grega não poderá ser arredado, no entender do Professor John Wilkins, especialista em Cultura Grega na Universidade de Exeter, Inglaterra, da forma como a dieta mediterrânica se instituiu e depois evoluiu ao longo dos séculos, transformando-se, assim, e principalmente devido ao papel crucial destes médicos da antiguidade clássica, numa das dietas mais saudáveis do mundo.

Grande parte do trabalho da análise desenvolvida por Wilkins baseia-se em escritos de um desses médicos antigos, discípulo da “Escola de Hipócrates”, chamado “Galeno de Pérgamo”, que frequentemente prescrevia aos seus doentes alimentos ricos em alho e cebola para reajustar os seus “níveis de humor”.

Galeno, segundo John Wilkins , vê a nutrição como um terço da arte médica, a que associa a farmacologia e a cirurgia. “Se as pessoas tinham mau humor, ou catarro, por exemplo, então Galeno prescrevia na dieta dessas pessoas muita cebola e muito alho para tornar o paciente mais receptivo à boa disposição”. Evidentemente, que por detrás deste mau humor poderão estar algumas mazelas que as propriedades do alho e da cebola ajudam a combater, como, talvez, o excesso de colesterol.

Wilkins refere ainda que entre os extensos escritos de Galeno sobre comida, ele incluía receitas para diferentes tipos de pão e bolos que deveriam ser consumidos consoante a necessidade de combater uma ou outra anomalia de funcionamento do corpo humano.

Interessante é também o facto que vem de encontro a algumas correntes de nutricionistas da actualidade, e tal como elas também Galeno aborda os perigos do consumo de leite, que o médico filósofo acreditava ser nefasto para a saúde, nomeadamente para o bom funcionamento do fígado.

Galeno, nascido em 129, é considerado um dos mais influentes médicos gregos da “Escola de Hipócrates” e os seus textos foram amplamente difundidos e utilizados durante muito tempo ao longo da antiguidade. Ele acreditava sobretudo no princípio do humorismo, princípio esse que se baseava na ideia de que um excesso ou deficiência de bons fluidos corporais, ou humores, influenciava o temperamento e a saúde das pessoas.

Entre os diferente alimentos considerados por Galeno estão, por exemplo, as lentilhas, que ele recomendava que fossem consumidas após uma breve fervura e com um tempero simples baseado em molho de peixe e azeite. Assim consumidas, defendia o antigo médico, dariam um efeito laxante.

Num outro texto, assinala John Wilkins, Élio Galeno também descreve como os caracóis, um “petisco” tão popular principalmente no sul do nosso país, precisavam de ser fervidos duas vezes em água para reduzir as suas propriedades laxantes. Ele também dá ênfase à necessidade de se temperar sempre os alimentos e acreditava que cozinhar o marisco poderia melhorar as suas propriedades alimentares.

O médico de Pérgamo, uma antiga cidade grega situada na Mísia, no noroeste da Anatólia, próximo do Mar Egeu, também recomendava ou prescrevia aos seus doentes mais endinheirados especiarias tropicais, como pimenta, gengibre e canela. Enquanto outros médicos seus contemporâneos sublinhavam e insistiam na importância das frutas e dos legumes.

Um texto de Hipócrates datado de 400 a.C adverte para a importância da cevada, cereais, leguminosas, frutas, legumes, carnes e peixes no equilíbrio da saúde humana. Cenouras silvestres, cogumelos, rabanetes e trufas são outros alimentos de grande importância para os médicos desta altura. No fundo, o que estes médicos preveniam, ou tinham intenção de prevenir, era o consumo exagerado de gordura, de sal e de açúcar, a trindade maléfica que assolou a cultura ocidental nos últimos séculos, sobretudo a seguir às revoluções agrícola e industrial.

Segundo o que investigador da Universidade de Exeter defende no seu artigo, “a dieta antiga assemelhava-se à dieta mediterrânica moderna, mas sem as laranjas e os limões que entraram posteriormente a partir da China, ou sem os tomates que foram também posteriormente importados a partir da América do Sul”.

Conclui-se assim que a dieta mediterrânica era sobretudo uma dieta baseada nas plantas autóctones, de onde nasciam produtos e alimentos que os médicos da altura geralmente preferiam em detrimento do luxo e do exotismo de produtos importados. Por outro lado, a antiga área do Mediterrâneo não era muito pródiga em animais, de modo que o consumo da carne era bastante limitado. Tudo o que se consumia provinha principalmente do solo e do mar e daí a importância do azeite, dos cereais, das frutas, do peixe e seus derivados na dieta alimentar dos povos mediterrânicos.

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