“Penajias”, “Penajóias” “Samartinheiros”, ou os homens que se vestiam de palha

Domingos Alvão, (Porto, 1869-1946)
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Luis Pereira

Arqueólogo de profissão. Desenvolve a sua actvidade no âmbito da…

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Ainda me lembro. Lembro-me perfeitamente destes homens vestidos de palha e sempre dobrados sobre as videiras já nuas das quintas maiores de Vale de Mendiz. Achava-os estranhos naquela figura antiga, vestidos com croças e calçados com uns socos de pau que arrastavam num som metálico pelas ruas silenciosas da aldeia. Olhava para eles com os olhos congelados na admiração, ouvindo-lhes também uma espécie de silêncio pardo que lhes saia dos braços a rasgarem o frio húmido dos meses de dezembro e janeiro.

Era nessa altura que os “Penajóias” ou “Penajias” se instalavam em todas as vinhas velhas do Douro da minha infância, enovelados num “nevoeiro mijão” que se abatia rentinho ao rio. 

E lá ficava eu, no caminho da escola, a admirar aqueles homens de aspeto palhuço, tapados da cabeça aos aos pés por um capote vegetal e com chapéu a condizer.

Eram pessoas educadas, silenciosas ou silenciadas pela timidez de estarem em terra alheia, sempre concentrados numa operação de mestres operadores, a cortar as videiras de forma certeira e sábia, em gestos monótonos de onde apenas saía o tic, tic, tic de uma tesoura a calejar-lhes as mãos.

Vinham de longe, de bastante longe, numa época de isolamentos medonhos. Diziam-me que vinham da montanha, uma espécie de lugar muito distante que eu imaginava coberto de neve. Mas estes homens vinham afinal de tão perto, dali dos lados de S. Martinho de Mouros e da zona da Penajóia, dos concelhos de Resende e Lamego, próximo da Serra de Montemuro.

Em Vale de Mendiz nunca nevava e talvez por isso não precisássemos daqueles capotes de colmo confecionados em tiras simétricas que estes homens usavam para aconchegarem os corpos dobrados sobre as videiras já despidas de frutos e de todas as folhas estioladas na paleta das cores outonais do vale.

Os “Penajias” dormiam nos cardenhos das quintas, em tarimbas de madeira e feno seco, com uma pesada manta de lã a calcar-lhes os corpos cansados. Pela madrugada rasgavam o espesso silêncio das aldeias durienses, a arrastar os tamancos para as vinhas prenhes de geada e de uma nova esperança que eles granjeavam em primeiro lugar.

A poda era a operação germinadora do novo ciclo vegetal da vinha. Era por isso um trabalho de especialistas, um trabalho raro que expunha um labor meticuloso de arranjo de mãos, na escolha dos “ôlhos” que haveriam de ficar em cada vara, para depois, logo que surgisse o mês de março, explodissem os pâmpanos, num verde esperança, de onde nasceriam as folhas e o fruto escorreito e belo.

Dos “Penajias” quase não há registos. Há apenas memórias. Memórias arquivadas no coração de alguns que ainda sentem um Douro de infâncias já desaparecidas. Lembrei-me dos “Penajias”, “Penajóias” ou “Samartinheiros” quando revisitei um texto do autor que mais amou o meu Douro. Lembrei-me destes homens quando reli um texto de João de Araújo Correia, que deles fala de um modo tão real quanto comovente. Lembrei-me deles e quero que outros também se lembrem. Por isso esta lembrança, esta memória, não irá por aqui ficar …

 

“Estes podadores não são daqui.[…]
São aves migradoras.
A discrição destes homens! É provável que não saibam ler nem escrever, mas têm sabedoria. Não se misturam, não pactuam nem fraguam com os naturais, que são, em geral, conflituosos. É caso raríssimo irem à taberna. Mas, se vão bebem o seu copo e largam. Nada de conversas, nada de se meterem pela terra dentro com quem os pode magoar. Sábia atitude! Dá-lhes como resultado irem daqui com o bolso quente e as costelas direitas. […]
Vêm todos os anos, pelo inverno, como os tordos pela azeitona, podar as vides do lavrador duriense. Vêm de Resende. Pertencem quase todos à freguesia de S. Martinho de Mouros. O povo, cá em cima, chama-lhes são-martinheiros ou, comprimindo a frase, samartinheiros. São os samartinheiros…
Homens de croça… Homens de socos… Homens de chapéu esguio, de colmo, como um rolheiro disposto para aparar todas as águas. Samartinheiros discretos, benignos, poupados, silenciosos de língua, mas ruidosos de pés. Terrum, terrum, terrum… Todas as manhãs me acordam, acordando a calçada íngreme onde moro. Vão para o trabalho. Eu preciso de trabalhar também. Por isso me ergo, não ao canto das aves, que estão mudas, mas ao som dos socos, que tão matutinamente despertam. Não lhes quero mal. Sou indulgente com eles. Para mim, não obstante o seu fragor, são até musicais. Se os vejo, acho-os até coreográficos. São o meu despertador. Não preciso de outro”.
[João de Araújo Correia, in Três Meses de Inferno]
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