Os pensamentos são como as cerejas, agora que estamos no tempo de fazer as hortas

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Quem não gostaria de abandonar o décimo quarto andar do prédio onde habita por apenas 5 minutos para vir colher uma alface à horta que cresce viçosa ali ao lado? Pouca gente o consegue fazer, mas no mundo urbano há cada vez mais um maior número de pessoas que o faz, simplesmente porque cultivam uma pequena horta no sopé do prédio onde habitam.

Em Portugal o número de pessoas que praticam uma agricultura urbana sustentada ainda é muito residual, mas a Organização para a Agricultura e Alimentação das Nações Unidas (FAO) estimou que em 1998, em todo mundo, cerca de 800 milhões de pessoas praticassem a designada agricultura urbana, o que representa 15 por cento de toda a produção de alimentos actualmente processada a nível do nosso planeta.

O fenómeno das hortas urbanas não é recente e acompanhou o processo de industrialização e urbanização crescente a que a Europa foi sujeita desde o séc. XVIII. Foi nos países da Europa do norte que a actividade se expandiu, principalmente a partir de meados do século XIX. A Alemanha e a Dinamarca foram e continuam a ser os dois países pioneiros neste tipo de agricultura urbana.

Em Portugal o fenómeno foi sempre muito residual, mesmo nos principais centros urbanos como Lisboa e Porto, principalmente por serem duas cidades com baixos índices de industrialização e porque até há poucas décadas atrás estavam marcadas por um ambiente rural que se quedava muito próximo do tecido urbano propriamente dito.

A asfixia dos bairros residências, o crescimento desordenado que com maior ou menor intensidade se processou nos corpos urbanos das nossas cidades, mesmo nas de menores dimensões, comummente designadas como cidade de província, levou ao aparecimento de alguns exemplos, embora sempre muito residuais, de hortas urbanas.

A actividade, diga-se, também nunca foi muito apoiada pelo poderes políticos instituídos. Gonçalo Ribeiro Telles, um conhecido arquitecto paisagista do nosso país, e uma das principais vozes que defende a instalação de hortas familiares nas grandes cidades faz questão de sublinhar que, por exemplo, na Alemanha «uma pessoa jovem recebe, não dinheiro para cultivar, mas sim capital para se instalar; geralmente, esse jovem é adoptado ou adopta um casal de idosos, vai viver na sua propriedade, e faz o que esse casal costumava fazer no que respeita à agricultura». Esta é uma forma eficaz de transmitir os saberes dos mais velhos para os mais novos, ao mesmo tempo que existe uma clara compensação social ao promover este convívio inter-geracional.

Se nos debruçarmos sobre a realidade portuguesa deparamos ainda com uma incipiente e tímida experiência neste domínio. Ribeiro Telles radica o ainda pobre movimento da agricultura urbana em factores de ordem sociológica e mental. Diz o arquitecto que actualmente, na actual conjuntura sociológica, «as pessoas que estão instaladas na cidade nunca iriam aceitar essa mudança para o ambiente rural» porque, frisa o arquitecto, «em Lisboa, as pessoas estão convencidas que a paisagem urbana tem de ser constituída por prédios, e que o resto simboliza um atraso», sublinha.

Contudo, o fenómeno começa a ser perceptível, com maior ou menor intensidade, em diversas cidades portuguesas. Cada vez mais o poder local concebe estes espaços de agricultura familiar como uma forma sustentável de gerir a malha urbana, uma vez que permite multiplicar e fazer proliferar mais espaços verdes sustentados directamente pelos habitantes, uma requalificação mais abrangente da paisagem urbana e a redução de emissões químicas nocivas para o ambiente.

Os novos adeptos das hortas urbanas são geralmente pessoas ligadas a uma infância passada no campo; pessoas que têm a necessidade económica de complementar com um recurso extra o abastecimento de frutos e vegetais da unidade familiar ou ainda pessoas com altas preocupações ecológicas e ambientais e mesmo sociais, uma vez que a horta urbana poderá constituir-se como um excelente instrumento para fomentar projectos de inclusão social, sendo, simultaneamente, susceptível de desenvolver entre os cidadãos uma sólida consciência ambiental.

Pensa-se que o fenómeno das hortas urbanas possa crescer de forma exponencial nos próximos anos, tendo em conta os problemas económicos e financeiros que caracterizam a actualidade e, por outro lado, os medos cada vez mais crescentes em consumir produtos hortícolas de crescimento padronizado e sujeitos a padrões e lógicas de produção altamente formatados.

De qualquer forma o conceito e a acção com vista à implementação de uma produção agrícola sustentada tem que inevitavelmente se constituir como o caminho do futuro. É inevitável e urgente abandonar de forma definitiva as prateleiras dos super e híper mercados, onde os produtos agrícolas são apresentados de forma muito atraente, mas com um ciclo de produção e crescimento assente numa massificação química com repercussões desastrosas no ambiente e na nossa saúde.

Por outro lado é importantíssimo valorizar o trabalho das pequenas unidades de produção familiar e tornar viável o pequeno investimento na agricultura das pequenas propriedades agrícolas de que a nossa região é prolífica. Se não faz ou não tem possibilidades de fazer uma horta, então compre no pequeno produtor, aposte nos produtos que saem das entranhas da terra que você vê cultivar, quantas vezes de forma ainda tradicional, correcta e sustentavelmente, por pessoas idosas e que necessitam de um complemento adicional de receita para o seu equilíbrio financeiro.

É por isso que o Decreto-Lei n.º 85/2015 ontem publicado em Diário da República se constitui como de fundamental importância, não só para os produtos vegetais, como para todas as restantes produções que até aqui sofriam de uma grande incapacidade de escoamento, avassaladas por imposições e restrições e mais restrições.

A iniciativa em criar os designados mercados de proximidade, também chamados mercados locais de produtores, constitui uma oportunidade para todos nós, habitantes do interior, para mudarmos os nossos hábitos de consumo, beneficiando ao mesmo tempo a nossa carteira e a nossa saúde.

Esperamos agora que as iniciativas da sua implantação se multipliquem em cada concelho, de forma a podermos usufruir de bons e saborosos produtos.

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