O Medo

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Dizia Maquiavel no seu ensaio político intitulado “ O Príncipe”, no distante século XVI, que o príncipe devia, antes de tudo, e para um bom exercício do seu poder, impor aos seus “súbditos” o medo, porque, argumentava o pensador renascentista, quem governa, – leia-se o príncipe de poder absoluto -, “deve procurar ser temido, em vez de ser amado”.

Com efeito, o medo sempre se revelou historicamente como uma arma com grande eficácia na imposição de vontades únicas, de intenções sem partilha ou de ideias sem debate. Em todas as grandes estruturas históricas, desde o esclavagismo passando pelo feudalismo, absolutismo, fascismo, comunismo até à democracia, que a vontade de um ou de um clã tem sido sistematicamente imposta, de forma mais ou menos descarada, através do medo. O medo ou a imposição do medo tem acompanhado a evolução estrutural do processo Histórico, apresentando-se hoje com uma feição mais elaborada, diria mesmo requintada, pelos métodos e pelas técnicas do “markting” dos estados democráticos.

Em abono da verdade, a democracia tem funcionado também no nosso país assente em pressões e em medos. O medo de perder o emprego; o medo de não ter dinheiro para pagar a letra ao banco; o medo de ser colocado na prateleira; o medo de reclamar; o medo de dizer a verdade; o medo de dizer o que se pensa; o medo de participar; o medo de ser excluído, marginalizado; o medo de intervir ou o medo de não ter medo de dizer “basta!”.

A nossa democracia, a democracia que é gerida pelas políticas sociais e económicas de apenas dois partidos desde 1974, assenta nessa filosofia maquiavélica que radica o absolutismo individualista ou de castas numa fórmula sectária que impõe medos e que nos dias de hoje controla e dirige a coisa pública baseando-se por exclusivo no princípio da legitimidade dada pelo acto eleitoral.

Assente nessa base, aniquila as minorias reais, e tenta fazer a mesma coisa às minorias que em determinada fase política formam aquilo que se designa por oposição. E em conexão com essas regras, a acção política de quem governa em dado momento coage, em cada época e a seu modo, uma multidão de receosos, apropriando-se dela pelo método da imposição de medos.

E são esses medos que tornam as pessoas comodistas, pouco intervenientes, metidas com a sua vidinha, enquanto o descalabro e a falta de ética e de escrúpulos de algumas castas sociais, políticas e económicas deste país sem retorno, impõem prosápias e desbaratam com indevida apropriação os valores e as riquezas colectivas.

O medo existe e a vontade própria que integra o livre arbítrio de cada um refugia-se, na maior parte das vezes, num arranjo moralista ornado de cúpulas celestiais. “Se deus quiser tudo há-de melhorar”, ouve-se dizer hoje com a mesma retórica e com a mesma crendice com que no período medieval se sustentou a estrutura que tinha por exploradores do trabalho humano uma classe de improdutivos e oportunistas que ficou conhecida historicamente como a classe senhorial. E a vida concreta, aquela que se repercute directamente no nosso corpo, esse comensurável materialismo existencial que vê o homem como usufrutuário daquilo que ele mesmo produz, continua adiado, torce-se em rodilha de carga até ao extorquir da última gota de suor.

Chegados aqui, devemos sublinhar a ideia de que o modelo da nossa democracia é definitivamente um modelo falido; um modelo de medos, de imobilismos, de resignação, de incompreensível conformismo; um modelo que nos retira em nome de uma falsa concepção economicista direitos adquiridos; um modelo que caminha a passos largos para a concretização de um país em dois planos: um dos exageradamente ricos e outro dos miseravelmente pobres. Um modelo que nos bipolariza em dois reinos: o do litoral e o do interior. Um modelo que elege deputados que nada fazem, que nada defendem e que constituem apenas um encargo financeiro aos cofre do estado; um modelo que trata o interior como um embaraço e não como uma potencialidade susceptível de gerar riqueza comunitária; um modelo cada vez mais impositivo, menos dialogante, mais autoritário e menos solidário; um modelo que apenas descrimina positivamente os grandes interesses económicos e financeiros e que age sempre e repetidamente em função de estratégias eleitoralistas.

Mas quiçá os poderes instituídos apenas estejam a seguir à risca os ensinamentos da cartilha de Maquiavel e não procurem ou estejam interessados em governar para os anseios do povo, em ouvir as suas reivindicações e ensejos, ou ainda em ser amados pela maioria desse mesmo povo que os elegeu, mas tão-somente, e nesta fase, apenas pretendam ser temidos, a julgar pela sua acção política nada dialogante, de contornos arrogantes e com uma autoridade que já não se experimentava desde o tempo de Salazar.

Falta saber é se estes senhores e os seus correligionários interpretaram ou ouviram bem os conselhos de Maquievel, porque a determinada altura, o ensaísta que concebia ideias para políticas enquadradas num esquema absolutista de governação é bastante objectivo no seu ensinamento que faz ao príncipe. Dizia ele: “o príncipe deve procurar ser temido, em vez de ser amado, mas deve evitar ser odiado, porque pode pôr em causa o seu poder”.

Dizem também, e é verdade, que entre o temor e o ódio vai uma distância com o calibre de um cabelo….

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