O mapa chinês que afinal era de Sumatra, ou a prova de que já existia globalização no séc. XVII

O mapa da marinha mercante mais antigo que se conhece até hoje, a designada “Carta Chinesa de Selden”, que mostra já um processo geral de globalização patente no século XVII, afinal não é chinês, mas provavelmente de Sumatra, Indonésia.

A investigação conduzida pela Universidade de Nottingham Trent, em colaboração com a Secção do Museu de Ciência Victoria y Albert, identificou pela primeira vez todas as técnicas presentes na produção de um mapa deste período, desde os materiais utilizados até às técnicas e erros de desenho e redesenho feitos pelo cartógrafo. Esta descoberta, considerada como vanguardista, deu-se devido à utilização de novas técnicas consideradas de “ponta”. Os cientistas, cujo estudo foi publicado na revista  Heritage Science , afirmam que o Mapa de Selden foi feito em Sumatra e não na China.

O mapa, com um metro e sessenta centímetros de comprimento e um metro de largura, representa as antigas rotas comerciais marítimas na Ásia, tendo sido feito entre os anos de 1607-1619. Pintado com aguarelas e tinta sobre papel chinês, é considerado um exemplo único de mapeamento comercial no oriente, mostrando uma rede de rotas marítimas com indicações de direções a partir do porto de Quanzhou, Província de Fujian, e atingindo o Japão e a Índia.

Muito pouco se sabe sobre a origem do mapa de estilo chinês que chegou à Biblioteca Bodleian na Universidade de Oxford em 1659, um documento doado pelo proeminente advogado de Londres John Selden, e onde aqui permaneceu até sua à “redescoberta” em 2008.

Contava John Selden que este “mapa foi feito na China” e tinha sido trazido por um comandante Inglês. Agora examinado com mais pormenor através de uma técnica  “multiespectral” de imagens, desenvolvida na Universidade de Nottingham Trent, permitiu que os cientistas pudessem observar pormenores e detalhes ocultos e que não são visíveis para o olho nu. Uma série de técnicas analíticas complementares foram utilizadas para identificar os materiais, tendo-se concluído que os meios de ligação presentes neste antigo mapa foi a goma arábica, uma pasta feita a partir da seiva da árvore da acácia – uma seiva tipicamente usada por europeus e sul-asiáticos – e não a cola animal, que era quase sempre utilizada em pinturas chinesas da época.

Um zoom sobre o pormenor de todos os elementos presentes levaram ao exame de um pigmento que mostrou uma mistura de anil com o auripigmento (ouro-pimenta), um mineral de cor amarelo-limão ou amarelo-bronze resinoso e brilho nacarado que é considerado pelos especialistas como muito incomum na pintura chinesa realizada durante este período .

Por outro lado, dizem os cientistas, ao ser detetado um cloreto de cobre básico nas áreas verdes das pinturas, leva à conclusão que existem aqui influências das técnicas utilizadas por esta época no sul e no oeste da Ásia, onde muitas vezes era usado em manuscritos. Por sua vez, este pigmento verde não se usava em pinturas de papel na China.

Quer os aglutinantes, quer os pigmentos usados no Mapa de Selden, são consistentes com as técnicas provenientes de uma tradição do manuscrito persa, ou indo-persa, ou mesmo do mundo islâmico, e não das técnicas chinesas ou europeias, afirmam os investigadores.

Segundo os investigadores, “este estudo ilustra a importância de não julgar um livro pela capa”, porque, sublinha em comunicado a professora Haida Liang, chefe do grupo de pesquisa da Universidade de Nottingham Trent, “um mapa aparentemente chinês, afinal mostra-se como um rico documento que testemunha uma evidência material de uma fusão de culturas , uma pintura de estilo chinês, que expõe elementos cartográficos chineses e não chineses, mas cujos materiais usados na pintura e não só, demonstram muitas mais afinidades com as técnicas utilizadas nos manuscritos persas e indo-persas”. A prova de que a globalização era um fenómeno já patente no século XVII.

 

Referência:
The origins of the Selden map of China: scientific analysis of the painting materials and techniques using a holistic approach
Sotiria Kogou, Sarah Neate, Clare Coveney, Amanda Miles, David Boocock, Lucia Burgio, Chi Shing Cheung and, Haida Liang
Heritage Science 20164:28 DOI: 10.1186/s40494-016-0098-x

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