O caminho para a imortalidade?

Transferir o conteúdo da mente humana para um computador parece uma ideia saída de um qualquer filme de ficção científica. Mas para um número cada vez maior de cientistas e empresas que se dedicam ao trans-humanismo, trata-se de uma ideia com contornos cada vez mais palpáveis.

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A ideia é arrojada. Poderá passar por uma reprodução gradual do comportamento de cada neurónio mediante a utilização de minúsculos implantes cerebrais, ou através de sucessivos scans de secções cerebrais, por forma a registar a distribuição e atividade neuronal. No momento em que toda a informação respeitante aos vários biliões de conexões inter-neuronais é transferida, a nossa vida biológica termina, dando início a uma existência digital.

No meio literário a ideia não é nova. Em The Mind Children: The Future of Robot and Human Intelligence, Hans Moravec, professor de robótica cognitiva da universidade Carnegie Mellon expressa a sua convicção que o futuro passará por um abandono massivo dos nossos suportes biológicos em detrimento de estruturas computacionais. Em The Singularity is Near, o cientista e visionário da Google Ray Kurzweil afirma que uma reprodução de um cérebro humano num sistema eletrónico ofereceria mais rapidez e eficiência que o cérebro humano.

Do ponto de vista teológico, são interessantes os paralelismos que se podem estabelecer entre as ambições trans-humanistas e, por exemplo, a escatologia, ramo que se dedica ao estudo dos episódios últimos da realidade comum, morte, e reunião da alma com o divino. Cristo referiu-se ao reino de Deus como sendo terrestre, embora sem as imperfeições da existência terrena. Perante isto, podemos questionar se será a tecnologia a ferramenta através da qual a humanidade atingirá a ressurreição e imortalidade. Se ela permitirá, finalmente, fazer sentido das profecias e parábolas sobre o destino do ser humano como espécie.

Mas o futuro, como conceito, sempre foi lucrativo. Não é, portanto, de espantar que várias empresas se tenham apressado em desenvolver ideias de negócio alicerçadas em conceitos trans-humanistas. É o caso da Carboncopies e a 2045 Initiative. As suas áreas de pesquisa focam-se no desenvolvimento de tecnologias que possibilitem a reprodução de um cérebro humano e na criação de cópias robóticas humanas (avatares) capazes de funcionar autonomamente. Mais recentemente, o fundador da SpaceX e da Tesla, Elon Musk, afirmou que o cérebro humano terá inevitavelmente que se fundir com máquinas por forma a tornar-se competitivo face ao crescente domínio da inteligência artificial que nos rodeia. Caso contrário, afirma Musk, tornar-nos-emos meros ‘gatos domésticos’ dessa mesma inteligência artificial.

Mas admitamos a possibilidade de migrar com sucesso o conteúdo de um cérebro humano para um computador. Terá tal conteúdo, só por si, capacidade de ser consciente? De ter a noção do eu? A resposta a estas perguntas torna-se ainda mais nebulosa perante o desconhecimento da neurociência moderna face à forma como a consciência humana toma forma. E admitindo a premissa que esse conteúdo tem efetivamente a capacidade de se tornar consciente, como poderemos evitar que essa consciência seja, por exemplo, copiada múltiplas vezes para outros computadores como se de um mero software informático se tratasse? Como será possível, nessa situação, manter um sentimento de identidade unificada?

A questão da manutenção de identidade com o tempo torna-se ainda mais complexa quando nos questionamos sobre o que realmente significa. Da mesma forma que nos tornamos diferentes conforme a nossa idade avança, será de admitir que o ‘eu’ transferido possa ser muito diferente do anterior ‘eu’ biológico.

Finalmente, teremos de considerar todo um conjunto de novas questões, no mínimo, desconcertantes. Reproduções cerebrais poderão eventualmente ser apagadas por um vírus, malware, ou mesmo por uma reprodução de uma outra pessoa. Nesse caso, poderá uma reprodução ser condenada por assassinato? Se sim, em que moldes se processará a sua condenação? Poderemos questionar igualmente quais os direitos de uma reprodução. Imaginemos, por exemplo, a situação em que um indivíduo decide reproduzir a sua própria mente, morrendo algum tempo depois. Terá a reprodução deste indivíduo direitos legais a herdar bens do falecido? Poderá uma reprodução exigir direito ao casamento ou a algum tipo de bens e serviços?

Perante tudo isto vale a pena perguntar: estaremos efetivamente mais perto da imortalidade? Ou tudo não passará de uma pantomina recauchutada e readaptada aos tempos modernos, que mantém vivo o nosso sonho de vida eterna?

 Pedro H. Oliveira
Conteúdo fornecido por Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva (Via Notícias do Nordeste)

Artigo via Notícias do Nordeste
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