Mensagem do 25 de abril da bancada do Bloco de Esquerda de Alijó

E por ser assim, a democracia nunca é um projecto acabado. A democracia é um eterno processo em construção, um constante devir em questionamento e uma incessante busca da melhoria da nossa vida colectiva. A democracia é também um processo de ajustamento da nossa relação com o outro, um sistema que deve procurar a solidificação do respeito, da aceitação e da inclusão do outro.

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Faz hoje 44 anos que uma criança deste concelho assistia de olhos espantadiços ao florir de um país em liberdade. Lembro-me perfeitamente. Recordo com perfeita nitidez esse dia novo e grande que surgiu amanhecido na palavra liberdade. Liberdade! Era essa a palavra nova que me soava a estranho, talvez porque nunca a tivesse escutado naquele dizer cheio e solto, tão audível e tão diferente do modo como se pronunciavam em surdina as palavras proibidas.

E antes desse dia amanhecer, Liberdade era uma palavra proibida. E mais do que palavras proibidas havia gestos de forças repressoras que nos tolhiam o pensamento e a ação. É bom recordar, e sobretudo dizer a quem tem menos idade que o tempo da liberdade no nosso país, que Portugal antes do dia 25 de abril de 1974 era uma realidade tolhida por 48 anos de uma ditadura fascista isolada da comunidade internacional, um país despótico e com um vasto território gerido por uma política provinciana do “orgulhosamente sós”.

Portugal era, por isso, um projeto entrevado, um projeto sem futuro, um país que maltratava os filhos mais jovens com uma guerra injusta e traumática; um país desestruturado, subdesenvolvido, carenciado; um país sem estado social, sem saúde pública e sem um ensino que permitisse aos mais desfavorecidos a mesma dignidade e as mesmas oportunidades de aprendizagem e formação académica. Um país mergulhado num analfabetismo sem paralelo na Europa, onde as pessoas viviam no limiar da miséria, com um mundo rural privado de tudo, incluindo o pão e o restante alimento que tantas vezes faltava na mesa do nosso povo.

É necessário recordar, convocar a nossa história mais recente, para percebermos o que Portugal era antes do 25 de abril de 1974, para percebermos o quanto a partir de então evoluímos e o quanto de extraordinário e de bom fomos capazes de construir. E se assim aconteceu, foi porque num dia como o de hoje soubemos ser protagonistas e dar sentido prático a uma das revoluções mais poéticas da História da Humanidade. Uma revolução feita com cravos e palavras gritadas do coração! Foi com essa força e com essa peculiar forma de estar na vida que os portugueses e também nós durienses estruturamos a nossa democracia. Que instituímos uma das mais avançadas constituições do mundo civilizado; que estabelecemos um plural e democrático poder local; que soubemos criar um Estado Social; que proclamamos o ensino e a saúde como serviços tendencialmente gratuitos, reconstruindo desse modo todo um país, tornando-o muito melhor, um país com mais cidadania, mais igual, mais justo, mais tolerante, mais moderno, mais desenvolvido e um pouco mais feliz.

Caros conterrâneos:
Desde abril de 1974 que Portugal se cumpre segundo a nossa vontade. O que somos hoje a nós exclusivamente se deve. A democracia e a liberdade forneceu-nos os instrumentos de decisão. Ensinou-nos a lutar por ideias e projetos, permitiu-nos o confronto de opiniões, o debate e a disputa sã e democrática. Nestes 44 anos o poder político nacional e o poder político local saíram sempre da vontade do povo e foi com esse poder que construímos a sociedade e todas as realidades boas e más em que hoje vivemos. Tudo resultou do nosso livre arbítrio, que é o mesmo que dizer da vontade democrática e legitimadora que é conferida pelo voto da maioria dos nossos concidadãos.
Por isso, pouco temos que exasperar, nada temos a recusar, temos sempre é que lutar, porque em liberdade e em democracia é pela força do voto que resulta a soberania e a legitimidade de quem representa os cidadãos.

E por ser assim, a democracia nunca é um projecto acabado. A democracia é um eterno processo em construção, um constante devir em questionamento e uma incessante busca da melhoria da nossa vida colectiva. A democracia é também um processo de ajustamento da nossa relação com o outro, um sistema que deve procurar a solidificação do respeito, da aceitação e da inclusão do outro.

E é por isso que nas sociedades democráticas está sempre muita coisa por fazer, ou é sempre possível fazer mais, porque quanto maior maturidade democrática, maior responsabilidade, exigência cívica e sentido crítico terá de existir. E é precisamente aqui que entra o papel da oposição, a tal oposição que antes do 25 de abril não era consentida, sendo, pelo contrário, violentamente perseguida, reprimida…silenciada.

Um sistema democrático maturo é um sistema que deposita grande parte da sua esperança transformadora nas diferentes oposições. Porque é a elas que cabe fiscalizar, questionar, contrapor, propor, combater, catalisar, conquistar e mostrar que faz, que sabe fazer ou que é capaz de fazer melhor ou diferente. É na alternativa que mora sempre a esperança! E ter alternativa, ou existirem alternativas, é o que define a essência da liberdade e da democracia!

…..e perante a recordação dessa criança de olhos espantadiços que ouvia pela primeira vez a palavra Liberdade, perante a história desta minha vida que assistiu à alteração de um país, cabe-me hoje, agora, aqui, perante vós testemunhar que em democracia é sempre possível concretizar o sonho! Sim, em democracia é sempre possível melhorar, transformar, progredir… fazer mais!!! Com democracia é sempre possível fazermos um melhor país, é sempre possível fazermos uma melhor região…. é sempre possível fazermos um melhor concelho!

Da nossa parte, da parte do Bloco de Esquerda, da minha parte e da parte do meu companheiro de bancada António Rocha, contai com tudo de nós… para ajudar a fazer isso e muito mais!

Viva o 25 de abril
Viva o concelho de Alijó
Viva Portugal

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