MAAT para uns, Xeque-mate para outros

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A inauguração do Museu de Arte, Arquitectura e Tecnologia (MAAT) já foi feita em Lisboa. Mais um grande museu para a capital, uma obra da Fundação EDP que está a encher o olho a todo Portugal.

Dizem que é lindo. Não sei. Pelo que vejo na televisão é uma obra com uma arquitectura exterior que gosto. Quanto ao museu em si não me prenunciarei enquanto não o visitar e conseguir perceber alguma eficácia cultural na mensagem que tenta transmitir.

Sabemos que o dinheiro para a construção deste aparente novo pólo de atractividade lisboeta provém da EDP, uma empresa nacional de âmbito privado e que agora até é maioritariamente detida por capitais chineses. Até aqui nada de anormal. A EDP faz os museus que quiser, promove os movimentos culturais que achar convenientes para a construção social da sua imagem, ou recorre aos artifícios ou ofícios mais expeditos e eficazes para se promover enquanto empresa privada que encontra nos recursos colectivos as sapatas do seu poderio financeiro e económico.

O que eu acho anormal, e sinceramente repudio, é que esta demonstração de fanfarrice feita na capital resulte do sacrifício dos recursos naturais do interior. Ainda recentemente se aniquilaram dois valiosos vales de recursos naturais e patrimoniais no coração de Trás-os-Montes, e ontem promoveu-se na capital uma demonstração luxuosa da faustosa EDP.

Não deixa de ser irónico o facto de no interior, na província, a EDP colocar os intervenientes locais de chapéu na mão com operações de cosmética que pingam alguns “eurozitos”, mais parecendo uma instituição de caridade do que uma empresa que tem uma enorme dívida de responsabilidade material e moral para com as regiões que ficaram lesadas com os empreendimentos que geram os lucros que permitem a construção de MAAT’s e outras obras afins.

Muitos dos milhões de euros da EDP são gerados em Trás-os-Montes, mas aqui atribuem-se uns “fundozitos” para distribuir pelo ambiente ou pelo património, ou então lançam-se uns “programazitos” para pequenos ou muito pequenos empreendedores só para calar os críticos, esses “fundamentalistas” que insistem em apontar o processo de destruição sem preço que foi cometido aos recursos naturais da região.

Lá, onde tudo converge para o engrandecimento de uma megalómana capital, a EDP promove mais um museu de betão, que por sinal até é grande, lindo, apelativo, atractivo, evoluído e uma gigantesca obra de exibição e de demonstração de poder; enquanto aqui, onde tudo converge para a decadência e a pobreza, promovem o betão mas para destruir os nossos museus naturais, numa permissão tão deseperante, quanto profundamente injusta e irracional.

MAAT é um nome pomposo para um museu, porque envolve as enormes palavras Arte, Arquitectura e Tecnologia; mas Maat é também o nome de uma deusa da antiga civilização egípcia que ordenava a justiça e a rectidão. Bem se vê que essa deusa não tem a região transmontana referenciada no mapa onde reina a sua protecção!

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