Ligações Perigosas

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Ligações Perigosas. Fiquei nas últimas horas a pensar nesta expressão que mais não é do que o simples título de um bem conseguido filme de Stephen Frear, onde John Malkovich e Glenn Close se divertem num jogo de sedução que envolve uma mulher ingénua e fiel ao marido.

Talvez porque os dias encolheram e nesta perturbante ausência de luz natural consiga algum tempo para rever ou ver alguns dos filmes de antologia, frequentemente me invade este título por mim rotulado como um dos filmes da minha vida.

O filme é bom, diria mesmo brilhante a nível da direcção e da interpretação, com um enredo tão “sufocante” tanto quanto real, o que em si mesmo constitui a génese de um apego aos primeiros planos de um guião que não dá tréguas e que inevitavelmente arrasta o telespectador para um desafio cujo principal objecto consiste na decifração das causas e dos porquês da ignobilidade e da insídia no ser humano.

O filme remete-nos para um ambiente de sociabilidade pérfida, o que certamente servirá de alerta para muitas pessoas que costumam confiar em qualquer um.

A fita está bem conseguida porque derrama de forma genial a psicologia do ser humano, desnudando-o na sua realista elementaridade, levando-nos ao interior cómico e dramático dos sentimentos, à risível distância entre o que se aparenta ser e aquilo efectivamente se é.

Não é minha intenção fazer aqui uma abordagem crítica ao filme de Frears, primeiro porque não sou cinéfilo, e segundo porque o filme está já depositado no baú das obras-primas criadas pela humanidade.

Chamo aqui o filme de Stephen Frears porque o significado prático de algumas “ligações perigosas” se foi generalizando em acção de forma massificadora, acabando por invadir o comportamento da sociabilidade, da política e das mais diversas actividades profissionais.

A expressão, vista a frio, significa aleivosia. Significa o embuste da máscara; o que parece ser e que na realidade não é. Significa falsidade, intrujice, hipocrisia, mentira, maldade. Significa jogos de bastidores para a obtenção de uma qualquer façanha com o prejuízo de outrem. Significa o enredo mais fácil para encontrar o caminho do que se pretende sem a integridade moral e a convicção do pensamento formado na essência do verdadeiro humanismo.

E num jogo de intrigas, a dramaticidade de algumas cenas acumula-se até atingir um clímax que muitas vezes reduz o ser humano à ancestralidade da sua animalidade, à ancestralidade da sua bestialidade, do seu verdadeiro “complexo reptiliano”, como naturalmente lhe chamaria Carl Sagan.

Há muitos que conseguem contornar o “escolho” da verdade e safarem-se imunes, pelo menos por algum tempo; há outros que obtém resultados tão desastrosos com a mentira que até fariam corar de espanto e de vergonha a Marquesa de Merteuil.

Este meu “surrealismo” de hoje não parte de uma qualquer noite mal dormida, mas antes surge como um lamento eivado de social preocupação. E surge também porque me apeteceu escrever. Escrever apenas. Escrever sobre a triste condição de alguns seres que no dia-a-dia se revelam como bestialmente humanos.

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