Lagar de Azeite de Lavandeira: Um núcleo do Museu da Memória Rural

0 392

Sabia que a oliveira é uma árvore com grande antiguidade e que a espécie agrícola evoluiu a partir um arbusto mais antigo e selvagem chamado zambujeiro? Sabia que a grande expansão da oliveira em Trás-os-Montes terá sido efectuada nas últimas décadas do séc. XVII? Sabe como se fazia o azeite ao longo dos tempos? Sabia que o azeite além de um produto alimentar com grande valor na dieta alimentar mediterrânica tinha também outras aplicações como a iluminação ou a produção de sabão?

O Núcleo Museológico do Lagar do Azeite de Lavandeira, concelho de Carrazeda de Ansiães, elucida-o(a) sobre estas e muitas outras questões relacionadas com a cultura da oliveira e as formas tradicionais utilizadas ao longo dos séculos para produzir o azeite.

2A União de Freguesias de Lavandeira, Beira Grande e Selores com o apoio institucional da Câmara Municipal de Carrazeda de Ansiães, criaram o primeiro núcleo temático do Museu da Memória Rural que, centrado no “edifício mãe” situado na aldeia de Vilarinho da Castanheira, pretende polarizar o território concelhio num projecto que integrará núcleos museológicos susceptíveis de reabilitarem, num discurso museográfico e com recurso a sistemas multimédia, técnicas e tradições actualmente extintas, mas que até há algumas décadas atrás integravam de forma viva e partilhada a cultura rural que define este território, parte dele classificado pela UNESCO como Património da Humanidade, enquanto Paisagem Cultural Evolutiva e Viva.

No núcleo do Lagar de Azeite de Lavandeira trabalha-se apenas a temática do azeite, abrangendo as tradições associadas aos trabalhos agrícolas da cultura da oliveira e às técnicas de produção do precioso produto alimentar, desde sempre usado como tempero, mas com outras e diversificadas aplicações que vão da iluminação, cosmética, até à produção de sabão.

Todo o processo começa na apanha da Azeitona. Esta era uma das fainas agrícolas que mobilizava um maior número de trabalhadores em Trás-os-Montes. Os jornaleiros eram geralmente recrutados fora da povoação e vinham em ranchos trabalhar longas horas, numa altura do ano em que as condições climatéricas eram bastante adversas.

A estes trabalhos sazonais está ainda associada uma memória das pessoas mais idosas que viveram esta realidade, uma memória que urge preservar para uma melhor caracterização da cultura rural destas povoações. É esse o objectivo presente e futuro desta unidade museológica.

Este não é, portanto, um trabalho acabado. É apenas o início de um caminho de recolha, estudo, tratamento, valorização e divulgação das particularidades culturais de um povo, de uma gente anónima que se identifica a partir da sua memória colectiva, ou seja, a partir de um conjunto de manifestações cuja raiz mais profunda se alimenta numa longa e reminiscente história.
Fazer o azeite não é uma tarefa fácil. Desde que a azeitona chegava ao lagar existia um conjunto de procedimentos muito bem definidos para que o labor que ocupou tanta mão-de-obra e tanto sacrifício na recolha de cada bago, não se escoasse agora para o “inferno”.

Depois de chegada ao lagar, geralmente aos ombros de homens ou pelo carrego de machos e de burros, a azeitona era moída numa mó gigante que rodava graças à força de uma parelha de bois. Obtida a massa primordial, era agora a altura de a enseirar para a espremer até à última gota de líquido, porque “o azeite é como o ouro, sempre assim ouvi dizer”.

Um, dois, três apertos. Agora há a certeza de que não há o mais pequeno resto de azeite nas seiras. Todo o líquido, sangra e azeite, já está no tesouro, onde se vai separar, um para o uso da vida, outro para inundar o “inferno”. É nesta fase que a habilidade e competência do mestre lagareiro se manifestam. Era por isso que utilizava uma palha, geralmente de trigo, improvisada com uma azeitona na ponta para determinar a altura a que se encontrava uma e outro, ou seja, a sangra e o azeite.

A sangra ia para a rua através de um sistema de drenagem a que chamavam inferno; o azeite ia para casa, quantas vezes num odre feito de pele de cabrito, para depois “regar as batatas”, alumiar as noites de breu, cumprir as promessa de uma “ luzinha” no culto ao santo de maior devoção, ou em respeito pelas alminhas dos entes queridos.

Também não se esqueça que da borra de azeite se pode fazer sabão. Um sabão mais ecológico, bom para a pele, dizem, e tão simples de obter que não resistimos em deixar-lhe uma receita para poder experimentar:
1 litro de soda cáustica
Uma remeia de borras
5 ou 6 chávenas de cinza (chávenas das do chá)
E mexer sempre para o mesmo lado.
A soda deita-se de molho em 6 quartilhos de água

Mas o melhor é visitar o nosso núcleo museológico e entender no local, com a ajuda do discurso museográfico e multimédia que aí está montado, o funcionamento de todo esse sistema e das ancestrais técnicas que lhe estão associadas.

Comentários
Loading...