As Galinhas e as questões que andam à volta delas

Uma das questões “existenciais” mais conhecidas é a velha interrogação sobre quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha?

Não sei se alguém já respondeu a tal questão, mas a dúvida permanece viva e ainda hoje quando não conseguimos responder de forma cabal a alguma dúvida que nos é imposta, a velha formula vem sempre ao de cima, e em jeito de brincadeira não é raro formularmos, meio a brincar, meio a sério, a habitual frase: “essa é uma questão parecida com aquela de quem nasceu primeiro se o ovo ou se a galinha”.

Fosse quem fosse que nasceu primeiro, as dúvidas que agora são colocadas pela arqueologia americana relacionam-se com a forma como a galinha se expandiu pelo planeta, e particularmente como chegou até África. Esta é portanto uma preocupação já bastante séria e tem ocupado os investigadores da Universidade de Washington em St. Louis, que no International Journal of Osteoarchaeology   nos vêm prestar contas do que andam a tentar perceber.

Um osso de uma coxa de frango deitado fora há milhares de anos e ainda gravado com as marcas dos dentes de quem a comeu, oferece nos dias de hoje algumas das evidências físicas do mais antigo vestígio de galinhas domesticadas presentes no continente africano.

Com base na datação por radiocarbono de cerca de 30 ossos de galinha desenterrados no local de uma antiga aldeia agrícola na atual Etiópia, as descobertas estão a lançar uma nova luz sobre como as galinhas domesticadas cruzaram territórios e mares até chegarem a África e, finalmente, a todos os outros cantos do globo.

Este estudo, liderado por Helina Woldekiros e publicado recentemente no International Journal of Osteoarchaeology  fornece a evidência direta mais antiga da presença de galinhas em África e aponta para a importância do Mar Vermelho e para as rotas do leste do comércio com África na introdução do frango neste continente.

A espécie mais ancestral de frangos selvagens conhecido até ao momento são provenientes de zonas como o norte da Índia, o sul da China e o sudeste da Ásia, onde as galinhas foram domesticados pela primeira vez entre 6.000 a 8.000 aC. Agora quase omnipresentes em todo o mundo, estes primeiros frangos domesticados estão a oferecer aos investigadores valiosas pistas para perceber os contactos agrícolas e comerciais registados há milhares de anos.

A chegada das tão populares aves a África, bem como as rotas através das quais se polarizaram pelo resto do mundo ainda não são muito bem conhecidas. Investigações anteriores baseadas em representações de galinhas em cerâmica e pinturas, além de ossos recolhidos em diversos sítios arqueológicos, sugeriram que as galinhas foram introduzidas pela primeira vez em África através do norte , nomeadamente através do Egipto e do Vale do Nilo, cerca de 2.500 aC.

Mas o processo de difusão parece não ter sido bem esse, desempenhando aqui um papel crucial o Mar Vermelho e as rotas de transumância que nestes espaços regionais existiam há milhares de anos.

Este novo estudo ainda não consegue responder ao velho dilema de quem nasceu primeiro, se o ovo, ou se a galinha, mas baseado num conjunto de técnicas e resultados de cariz científico empurra a datação do processo de difusão da galinha pelo continente africano para um período bastante anterior ao que até agora era conhecido. E isso, em arqueologia, já não é pouco!

Referência: Early Evidence for Domestic Chickens (Gallus gallus domesticus) in the Horn of Africa
H. S. Woldekiros, A. C. D’Andrea
First published: 1 July 2016 DOI: 10.1002/oa.2540 
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