As “estátuas” do Senhor Cowell

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Durante o meu trabalho de arqueólogo territorial que ao longo dos últimos 15 anos tenho vindo a desenvolver ao serviço do Estado Português na região de Trás-os-Montes e Alto Douro, muitas foram as boas surpresas que me animaram a alma. Mas foram sobretudo três as situações em que fiquei verdadeiramente fascinado pelo valor cultural e pela raridade patrimonial que aos meus olhos surgiram por indicação de não menos fascinantes pessoas.

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Estela de Vilarinho da Samardã

A primeira agradável surpresa já aqui falei dela, foi a Pedra Formosa de Ribalonga. A segunda foi a Estátua – Menir e uma pequena “estatueta” de Vilarinho da Samardã, que hoje aqui vou falar delas, e a terceira os Cavalos Paleolíticos do Pousadouro, descobertos em Grijó de Parada, e que numa próxima oportunidade aqui virei falar deles para tornar pública a curiosa história que está por detrás da descoberta destes tão belos e raros exemplares de arte paleolítica.

Em todas estas situações, e em tantas outras que agora não vale a penar enunciar, não publiquei qualquer artigo ou notícia em revista da especialidade, por julgar – e julgo também agora eu que erradamente – que tais publicações deveriam ser feitas por colegas que tivessem por domínio da sua especialidade os horizontes cronológicos onde essas peças se enquadram.

Apenas me limitei a colocar um pequenino texto no Endovélico com a grande esperança de que alguém pegasse no assunto e dele se ocupasse num processo de investigação capaz de trazer até nós novas revelações ou novas propostas de interpretação desses, considero eu, relevantes achados. Apenas num ou noutro caso isso aconteceu, sendo que, como bem documentam os exemplos da Estátua-Menir de Vilarinho da Samardã, ou da Pedra Formosa de Ribalonga, depois de terem dado entrada no Museu de Vila Real mais ninguém parece ter-se interessado por estas peças, permanecendo ambas ainda como verdadeiros enigmas e que, como tal, carecem de ser decifrados.

Recolhi a notícia da existência da Estátua-Menir e da “Estatueta” de Vilarinho da Samardã num encontro ocasional que tive com o Sr. David Cowell, um curioso e culto professor inglês que conheci numa visita ao complexo mineiro romano de Três Minas, em Vila Pouca de Aguiar.

Sabendo o Sr. Cowell que eu era arqueólogo do então Instituto Português de Arqueologia, logo se apressou a dirigir-se-me e a explicar-me que tinha em sua casa, situada próximo da mamoa do Alto da Lomba, duas “magnificas peças escultóricas” que resgatou de entre um amontoado de pedras resultantes do desmonte de um muro de socalco das terras pertencentes a um agricultor que era seu vizinho.

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Estatueta de Vilarinho da Samardã

Ouvi o Sr. Cowell com atenção, registei o seu contacto e fui-me embora para uma reunião que tinha marcada, nunca imaginando, ou por erro meu nunca associando, a descrição do professor a uma estela menir de tão grande valor patrimonial.

Passou algum tempo, e quando a azáfama do serviço me permitiu uma brecha recuperei de entre os meus apontamentos as indicações e contactos do Sr. David Cowell.

Combinamos então uma visita em sua casa, sendo que jamais eu pensaria que nessa tarde iria ser presenteado com uma das mais emocionantes surpresas que até ao momento tive o prazer de viver enquanto arqueólogo no exercício da sua profissão.

Quando o Sr. Cowell me recebeu em sua casa e depois me apontou a extraordinária peça de escultura que se encontrava estendida no chão do seu quintal, fiquei de momento parado, meio sem palavras, a olhar para ele e para a estela, e na minha cabeça a reconstruir-se todo o conhecimento que sobre o assunto possuía e que até aí tinha extraído de algumas leituras realizadas sobre este tipo de peças. E como paralelo só conseguia encontra duas aqui para a região: a “Estátua –Menir de Faiões, em Chaves”*, e a “Estátua estela do Marco (Vreia de Jales, Vila Pouca de Aguiar)”**.

E depois de ter voltado à bibliografia e de ter analisado a tipologia e os paralelos existentes, continuo convicto de que a Estátua- Menir de Vilarinho da Samardã é um dos mais interessantes exemplares encontrados em Portugal e que a “estatueta “ descoberta no mesmo sítio é um dos mais raros e mais enigmáticos ídolos também encontrados em território nacional.

A Estátua-Menir de Vilarinho da Samardã foi talhada num monólito granítico, com o esboço claro de um antropomorfismo que é conseguido através da representação de uma cabeça que se desenha de forma rectangular até ao início do ombros, terminado depois num corpo que se alonga por mais de 1 metro de altura.

A peça encontra-se gravada apenas de um dos lados. A decoração organiza um conjunto de linhas que sugerem a configuração das diferentes partes constituintes de um corpo humano.

O rosto é conseguido a partir de uma organização recta e curvilínea de traços que delimitam um centro onde se insculpiram três fossetes com uma organização triangular, o que sugere a imagem de dois olhos e de um nariz.

Abaixo da cabeça, os ombros são alvitrados através de um alargamento da forma da escultura, forma essa que depois volta a estreitar para transmitir a imagem estilizada de um corpo de configuração humana.

Um traço oblíquo nasce um pouco acima do ombro direito e vem culminar no centro da peça, próximo de uma organização de linhas onde sobressai um motivo curvilíneo que antecede um reticulado formado por dois quadrados paralelos.

A seguir ao ombro esquerdo, que é acentuado através da gravação de uma linha ondulada, representa-se um motivo rectangular.

Estatueta encontrada em Vilarinho de Samardã
Com uma altura de cerca de meio metro, a “estatueta” de Vilarinho de Samardã revela-se como um monólito granítico abaulado, atarracado, representando uma “figura” de contornos enigmáticos.

A peça apresenta duas partes distintas. A parte superior define-se a partir de uma aro circular esculpido através de um sulco rasgado em baixo relevo, elemento que faz surgir uma primeira forma esférica e atribui ao conjunto uma configuração de contornos aparentemente fálicos. Contudo, o esboço fálico desta “escultura” esvai-se ao adquirir, na sua parte média, uma forma volumosa, cheia e exageradamente arredondada.

Imediatamente a seguir ao sulco superior surge um conjunto de elementos decorativos que integra um reticulado e um agrupamento de seis covinhas (fossetes) alinhadas paralelamente a meio da peça.

Vista no seu conjunto a “estatueta” de Vilarinho de Samardã sugere a imagem de uma “mulher grávida”, contudo o seu elevado grau de estilização não permite tirar ilações muito precisas, sendo que de uma maneira muito lata se poderá inserir na categoria dos designado ídolos que frequentemente surgem em contextos megalíticos e num horizonte crono-cultural que poderá ser balizado entre o Neolíticos e o início do Calcolítico.

Ambas as peças são provenientes das proximidades da mamoa do Alto da Lomba (CNS-2915) e foram recolhida pelo Sr. David Cowell num dos terrenos contíguos à sua casa de habitação.

Depois de ter falado com o Sr. Cowel, este simpático inglês, dono e guardião dos achados, acabou por entregar as duas peças ao Museu de Arqueologia de Vila Pouca de Aguiar, sendo posteriormente transladadas, por um mútuo acordo estabelecido entre as duas unidades museológicas, para o Museu de Vila Real, onde actualmente se encontram.

*Publicada em Trabalhos do Grupo de Estudos Arqueológicos do Porto (1979), artigo da autoria de Carlos Alberto Ferreira de Almeida e Vitor Oliveira Jorge.
** Publicada em 1994 na revista Portugália, Nova Série, Vol.XV, Porto, P 147-153. Artigo da autoria de Armando Coelho da Silva, João ribeiro Parente, Rui Centeno e António Baptista Lopes

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