Acende um pouco de incenso!

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«Entrando na casa, viram o menino, com Maria sua mãe. Prostando-se, o adoraram; e abrindo os seus tesouros, entregaram-lhe suas ofertas: ouro, incenso e mirra. Sendo por divina advertência prevenidos em sonho a não voltarem à presença de Herodes, regressaram por outro caminho a sua terra.» (Mateus 2:11-12).

Esta passagem no Evangelho de S. Mateus remete-nos para um dos produtos mais valiosos durante a antiguidade, tão valioso que constituiu mesmo uma das oferendas reais aquando do nascimento do Menino Jesus. Agora que o Natal se aproxima parece-nos uma boa altura para acendermos algumas luzinhas sobre a história do incenso.

O “Journal of Archaeological” fala-nos na sua mais recente edição da utilização do incenso por parte dos romanos. O tema poderá parecer de pouca importância, mas se pensarmos bem, o incenso tem, desde sempre, um papel simbólico e prático na cultura cristã e a sua origem remonta ao período romano, sendo que para o mundo ocidental o incenso tem sido apresentado como uma criação que irradiou a partir da antiga civilização egípcia. Contudo, o incenso já era conhecido das culturas chinesas desde o período neolítico e parece que pela mesma altura também já era fumigado nas culturas hindus.

Como se sabe, o produto aromático foi usado em cerimónias religiosas, rituais de purificação e mais recentemente é-o em nossas casas como ambientador; que o digam as lojas de chineses que polulam pelas nossas antigas zonas comerciais e que o vendem às carradas e com os mais diversificados odores.

Quando – como agora faço – acendemos uma tira de incenso, raramente pensamos na história deste odorífico fumo, mas como tudo o que existe, também o incenso tem uma história.

Na Europa, mais precisamente na Grã-Bretanha, segundo nos conta “Journal of Archaeological”, a primeira evidência científica do incenso usado em ritos funerários romanos foi descoberta por uma equipa de arqueólogos da Universidade de Bradford, provando-se desse modo que quando o Império Romano se encontrava já num processo de declínio estas substâncias, consideradas na altura como preciosas, continuavam a ser transportadas para o seu mais distante posto avançado do norte, a Grã-Bretanha.

Na verdade, e porque a Arqueologia tem este princípio de escarafunchar o passado até ao mais extremo limite, permitiu-se perceber, a partir de um conjunto de análises moleculares realizadas a detritos que se encontravam preservados dentro de recipientes de sepultamento, bem como a restos de esqueletos e aos invólucros corporais de gesso que os envolviam, que o incenso era muito utilizado por parte dos romanos que ocupavam este território europeu. A descoberta reveste-se de alguma importância, porque até aqui o uso deste produto, bem como o uso de outras “resinas de bom cheiro” em ritos funerários antigos, eram sobretudo atribuídos à antiga civilização egípcia.

Mas agora há provas de que essa prática de “perfurmar os mortos” também se praticava no séc. IV na Grã-Bretanha, nomeadamente e Dorset, Wiltshire, Londres e Nova York, datadas do terceiro para o século IV dC. Dos quarenta e nove enterramentos analisados neste projecto de investigação arqueológica, quatro apresentaram vestígios de um incenso originário do sul da Arábia ou África oriental e os outros dez continha elementos de prova relacionados com resinas importadas a partir da região do Mediterrâneo e Norte da Europa.

Os textos clássicos mencionam já estas substâncias como possuindo propriedades antimicrobianas, anticépticas e aromáticas, sendo usadas como uma medida prática para mascarar o cheiro de decomposição lenta durante os ritos fúnebres da elite romana que muitas vezes se prolongavam por imensos dias.

Mas deverá ter sido sobretudo a sua importância ritual que justificou o transporte do incenso de um extremo do império para o outro. Sendo entendido como dádivas aos deuses, estas resinas eram sobretudo utilizadas em forma de ritual e destinavam-se a purificar os mortos e a ajudá-los no processo da sua passagem para a outra vida após a finitude da experiência terrena.

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