A voz do sino é a Voz de Deus

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É longínquo e mentalmente complexo o conjunto de superstições que atribuem ao toque dos sinos um carácter apotropaico de configuração e contornos mágicos e profiláticos. Os metais, e em especial o bronze, possuem «uma virtude amulética» (ALMEIDA 1966:10) , capaz de precatar os males provocadas pelas “coisas ruins” geralmente atribuídos aos maus espíritos. E foi a mente humana que ao longo do processo histórico e cultural redimensionou e personificou o mal de uma forma objectiva, atribuindo-lhe um carácter real e de quotidiana convivência.

E para afastar esse mal é natural que se tivessem inventado ou reinventado os amuletos que, no caso das sociedades rurais, funcionavam como o perfeito antídoto, ou uma espécie de protecção e segurança que permitia o afastamento dos maus espíritos.

O som do bronze parece ter assumido, desde muito cedo, essa particularidade amulética e enxotadora de males e calamidades entre as comunidades rurais do final da Idade Média. Nesta altura o sino estabeleceu-se como instrumento transmissor de uma linguagem própria e facilmente descodificada em função dos parâmetros e dos códigos mentais da época. Por isso servia para tudo: regulava a vida das localidades, servia de esconjuro contra as trovoadas, os granizos e as tempestades; anunciava o nascimento, o baptizado, o casamento, a morte; avisava contra assaltos ou roubo; alertava contra incêndios; anunciava a missa… enfim, o sino instaurou-se desde a Idade Média como uma verdadeira “alfaia de uso quotidiano” e com uma codificação própria e comunitariamente partilhada, ajudando à cristalização da confiança colectiva que em ambiências mais rurais eclodiam em concepções ou preceitos cujo substrato cultural se torna difícil de caracterizar historicamente.

O toque do sino, o badalar do sino, o tanger do sino, o cantar, o chorar, o picar, o repicar, o dobrar, o bimbalhar, o tinir são tudo expressões que revelam a multiplicidade de significados inerentes a um código expresso pelo seu som metálico, e de imediato descodificado em mensagem pela comunidade que a recebia e colectivamente interpretava. Por isso havia toques para tudo, já que o sino era o meio de comunicação social mais eficaz em tempos pré-mediáticos. O sino adquiriu assim um carácter próprio e uma expressividade que foi sendo colocada ao serviço do profano e do religioso

Os sinos funcionavam como verdadeiros “serviços de meteorologia” dando «ao povo indicação da direcção do vento, da mudança de tempo, conforme a melhor ou pior audição» (Almeida 1966: 8) , do sino de outra localidade. Mas também « em nome da lei ou das assembleias comunais, chamavam o povo ao ajuntórios, chamavam o chefes, juntavam defesas colectivas e provocavam reuniões de variada feição associativa. Os sinos foram, durante séculos, a voz de todos esses clamores, de todos esses mandos. Indicavam o perigo tocando a rebate nos actos mais desesperados de invasão ou saqueamentos, e como vigias constantes, de permanente alerta, batiam em clarim, dando todos os sinais de luta e de guerra» (Braga, 1936:21).

Muito frequentemente o sino era também utilizado para afastar as trovoadas. Acreditava-se que este carácter mágico do som do bronze permitia esconjurar os males ruins, e por isso, o sino era tocado como prática habitual na maioria das aldeias e vilas do distrito de Bragança e Vila Real. Como anotou Jorge Dias relativamente a Rio de Onor (Dias, 1984: 165), «quando as nuvens da trovoada se começam a encastelar à volta da povoação, os rapazes vão à igreja e põem-se a tocar o sino. Passado pouco tempo as nuvens afastam-se e a trovoada desfaz-se. Dizem que o sino está bento.»

Também em Miranda do Douro recolheu Albano Belino a informação de que « há uma sineta que se encontra na capela de S. Ciríaco, na povoação de Genízio (…) que embora seja toda lisa e não apresente sinais nem inscrição alguma que revele o nome do autor, nem era ou data, o povo, que a tem em grande estima e até veneração, crê que ela é antiquíssima, o que parece presumir-se a avaliar pela grande massa ou depressão que apresenta o sítio em que bate o respectivo badalo, devendo notar-se que essa sineta a que o povo chama – campainha é poucas vezes tocada. O povo crê, piamente, que ela tem o dom de afugentar as trovoadas, e é, ordinariamente para este fim que ela é fortemente badalada.» (Belino citado por Braga, 1936:21). O autor refere que esta informação foi dada pelo Padre José Bernardo de Morais Calado a Albano Belino.

Em Aveleda, no concelho de Bragança, era habitual em dia de trovoada tocar os sinos, e do mesmo modo se acreditava que com o seu som « fogem as nuvens, dizendo: – não vamos para ali, que já ladram as cadelas da Cibrana.» . Segundo o Abade de Baçal, «o costume de tocar sinos contra as trovoadas é quasi geral por todo o distrito de Bragança, se bem que ainda há algumas povoações onde não se pratica, porque os seus sinos não teem eficácia. Não se deve tocar o sino desde que a trovoada entre no termo da povoação, porque então, em vez de a repelir, atrai-a.» (ALVES,1934: p. 369).

É difícil de fixar a origem da desta vertente mágica, deste sentido apotropaico de esconjuro que irradia do som do sino na cultura rural transmontana, embora algumas destas práticas possam ter géneses geográficas diferentes e terem surgido durante a época medieval. O costume de tocar campainhas para afugentar as trovoadas parece generalizado em outros países europeus. Segundo Carlos Alberto Ferreira de Almeida, «James Frazer, no seu livro Le Folklore dans l’Ancien Testamente, Paris, 1924, pags. 360 a 369, cita também idênticas práticas, sendo algumas medievais.» (Almeida, 1966: 13).

Não menos raramente o toque do sino funcionava com um carácter de natureza profilático, já que segundo a crença, permitia um rápido alívio da parturiente. « Em Bragança nos inícios do séc. XVIII, as mulheres que estavam para ser mães invocavam N.ª Senhora de Roncesvales e, se o parto estava a ser difícil, mandavam o marido ou a pessoa mais próxima em parentesco dar nove badaladas no sino e logo tudo corria bem» (Ameida 1966: p.19).

Este carácter profilático imbui-se de grande curiosidade cultural. Segundo Alberto Vieira Braga o sino era tocado nos partos difíceis porque o povo acreditava que as almas ouvindo o seu som rezavam pela parturiente. Carlos Alberto Ferreira de Almeida, contrapondo, considera que «esta não é a razão principal. Se esta prática visasse primordialmente pedir orações poder-se-ia fazer em qualquer igreja e de qualquer forma. Ora tal não se verifica. O toque é sempre feito em igrejas que têm como patrono uma santa advogada das parturientes, quase sempre N.ª senhora. Dão-se nove pancadas em memória dos nove meses durante os quais trouxe Jesus em seu seio, ou então são soadas por uma rapariga de nome Maria. O toque pelas parturientes parece ter o sentido de aviso à santa invocada. Como que pretende acordar a santa para que atenda a devota. Assim se compreende que seja geralmente o marido a fazer este toque.»

Já no aspecto mais lúdico, e segundo a crença popular, em algumas aldeias transmontanas o primeiro que repicasse os sinos na véspera de Natal «tinha segura uma bênção especial de felicidade durante todo o ano. (…) A bênção para o que os repica na noite de Páscoa da Ressurreição, também toda passada em toques festivos de sinos, consiste em ser muito feliz no encontro de ninhos de aves com pássaros.» (ALMEIDA 1966: p.19).

Estes são apenas alguns exemplos da versatilidade com que o som do sino se impôs no ordenamento quotidiano das comunidades rurais, estando por isso, e como se comprova por estes pequenos extractos, eivado de um certo maravilhoso “funcional”, sendo que em praticamente todas as comunidades rurais este instrumento desempenhava um papel central e centralizador dos actos comunitários.

Pelo toque do sino o camponês organizava as suas orações e actos diários. O sino usava-se literalmente para tudo : chamava os cristãos aos templos, media a passagem do tempo, espantava os males daninhos, alertava para a presença de ladrões ou de fogo; estava presente no nascimento, no baptizado, no casamento e na morte , e o povo, receptor das mensagens sonoras respondia e agia de imediato, porque a voz do sino, era a voz que chamava e alertava, a voz que informava e consolava, era uma voz sagrada: era «a voz dos santos, correspondente ao baptismo litúrgico de cada um». E o badalar, o repicar, o tinir, «cabem então dentro do símbolo espiritual», porque a voz do sino na profundeza do seu simbolismo nada mais era do que a voz protectora de Deus.

Bibliografia utilizada neste texto:
ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de (1966) – Carácter mágico do toque das campainhas. Separata Revista de Etnografia. Porto. 12, p. 1 – 32.
ALVES, Francisco Manuel (1934) – Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Vol. IX, Porto.
BRAGA, Alberto Vieira (1936) – As vozes dos sinos na interpretação popular e a indústria sineira em Guimarães. Revista Lusitana. Vol. 34 (1-4), p. 5 -104.
DIAS, Jorge (1984) – Rio de Onor. Comunitarismo Agro-pastoril. Editorial Presença. Porto.
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